Jonas's Reviews > O Socialismo Traído: Por Trás do Colapso da União Soviética

O Socialismo Traído by Thomas Kenny
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it was amazing

Ótima leitura.
A URSS dos anos 80 tava com várias dificuldades como os gastos militares se elevando (em resposta à pressão estadunidense do Reagan que tinha justamente o objetivo de "falir" os soviéticos), queda do preço do petróleo (parte essencial da receita soviética), bem como algumas ineficiências nas quantidades e qualidade de bens de consumo, em razão de descompassos e falhas nos mecanismos de incentivo da planificação Estatal.
Mas os autores pontuam muito bem que ainda que graves e reconhecidos esses problemas (tanto pela população quanto pelo Partido), nada disso era digno de uma crise sistêmica e irrecuperável. E mesmo até o fim, a população se manteve fiel à ideia de controle de preços, união das repúblicas socialistas.
A URSS era um Estado funcional, capaz de prover e atender às necessidades da população, os gastos militares e gastos com ajuda à luta anticolonial mundo afora. Não tinha data marcada pra nada cair, em que peses os problemas.

Os autores explicam como a ruína da URSS não se deu em função de suspostos "Vícios do socialismo"; nem de oposição popular (pelo contrário, o partido gozava de prestígio e foi isso que pavimentou o caminho e desorientou as bases na hora em que começou a traição); nem tampouco apenas Fatores Externos (como os já mencionados acima); também não foi nenhuma "contrarrevolução burocrática" de um estamento ossificado no poder há décadas, até porque várias medidas do Gorbatchov/Iakolév visavam enfraquecer o partido justamente pra abrir caminho para mais e mais desintegração; Também não foi culpa da suposta "falta de democracia", uma vez que houve greves, revoltas e oposição à algumas medidas, em que pese o problema de a destruição das instituições a partir de dentro apresentar um problema não resolvido.

Por fim o fator Gorbatchov: Em que pese todo ser humano decente tenha o dever moral de odiar esse homem e cuspir em qualquer imagem dele, é impensável que qualquer sistema complexo do tamanho de uma URSS caísse apenas pela ação de um homem. Sim, ele era um vendido, inepto, sem disciplina intelectual ou conteúdo na cabeça, sim ele era dissimulado e muito versado no jargão marxista-leninista pra passar as traições nos Congressos com linguajar palatável. Mas nada disso passaria se o Partido estivesse forte e firme nas disposições Comunistas. O Kruschev tinha caído por muito menos, pois o partido, na ocasião, tava em melhores condições político-ideológicas pra cortar o barato de revisionismos e aberturas excessivas à mercados.

O que os autores demonstram (numa análise digna do marxismo) é justamente o caminho intelectual (as históricas tendências dentro do Partido, que se resumiria simploriamente em Lenin, Stalin, Andropov de um lado e um Bukharin, Kruschev e Gorbatchov do outro) e as bases materiais que permitiram esse descalabro. Dão um destaque especial à chamada "Segunda Economia", que seria toda economia por fora da planificação (seja a legal ou ilegal). Essa economia paralela forneceu historicamente o substrato pra que essa tendência oportunista de direita fincasse raízes no partido. Por um lado intelectualmente, nas tendências revisionistas, por outro lado, de uma maneira mais insidiosa, corrompendo (no sentido usual da palavra) os dirigentes em todos os níveis. No final do período Gorbatchov, essa corrupção tava incontrolável, dado o incentivo dado pelo último à Segunda Economia.
Então, não foi apenas uma traição desprezível, mas o resultado de uma longa marcha de acontecimentos, problemas teóricos e ideológicos essenciais dentro do partido que não foram resolvidos, problemas econômicos cujas lacunas da planificação permitiram o fortalecimento da Segunda Economia e posterior entranhamento desta no seio da direção partidária. Tudo isso culminou no cara errado na hora errada (pois se diz que fosse o Andropov mais jovem, a URSS estaria aí até hoje, pois as reformas dele teriam tido tempo de ser levadas às consequências socialistas adequadas). Isso pra não falar na cegueira e inconsequência da trupe Gorbatchov quanto à questão nacional. A União das Repúblicas e o caráter Socialista desses Estados não eram duas coisas soldadas uma na outra. Foi preciso uma inépcia/imbecilidade especial pra permitir que os nacionalismos ficassem descontrolados como ficaram ao mesmo tempo que se destruíam os mecanismos de controle do partido-estado e a capacidade de planejar a economia.

Daria pra falar de tantas outras coisas boas do livro, que jogam uma luz não fatalista nesse processo.

Como nota sobre a tradução, meu palpite é que eles beberam PERIGOSAMENTE da edição de Portugal. Considerando que dos três atribuídos como tradutores eu sei garantidamente que um não é tradutor de ofício, mas militante do PCB (mérito, não demérito), eu atribuo aos outros dois a mesma categoria. A questão que me chamou atenção é que existe uma edição desse livro (que é a que consta aqui no Goodreads) da Editora Avante, de 2008, que aparentemente é a Editora do Partido Comunista de Portugal (não achei nomes responsáveis por aquela tradução). Depois da terceira passagem onde a palavra "registro" era grafada como REGISTO (o que me fez pesquisar e ver que é uma grafia possível para o português de Portugal) e de umas três passagens onde a capital da Islândia é grafada como Reiquiavique, em vez do nosso usual Reykjavik (do PT-BR), eu percebi que tinha algo de estranho... Mas tudo bem, não é o fim da história.
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Reading Progress

June 16, 2024 – Started Reading
June 16, 2024 – Shelved
June 23, 2024 –
page 165
58.3%
July 13, 2024 – Finished Reading

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