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Cinzito era um cachorro de pouca sorte, pensava. Mas, nem por isso gostava que as pessoas sentissem pena dele. Era orgulhoso demais para isso. Foi abortado por sua mãe, ela teve suas razões e ele nunca soube quais, sua infância foi pobre sempre procurando comida em lixos, virando-se sozinho, dormindo em caixas velhas de papelão. Mas, nunca perdeu sua essência de filhote, queria sempre brincar com as pessoas, mas elas batiam e o maltratavam. Sempre alegando nojo de sua aparência suja e maltrapilha. Não feliz com isso revoltou-se, aprendeu apanhando de outros cachorros e de outras pessoas a malícia de viver, mas sempre com moral e ética, nutria repudio raça humana, pois via nela ódio e desprezo emanando pelos poros. Dizia ele: “- Tenho pena dos humanos, pois é uma raça que não enxerga o coração daqueles que julgam inferiores. Não gostaria de ter nascido homem.” Assim cresceu e conheceu a cerne da humanidade mais podre. Ele procurava comida entre lixos e caçambas, em busca de qualquer coisa que pudesse satisfazer sua fome. Ele sentia fome de tantas outras coisas que não se encontravam no lixo, uma família por exemplo. Ele não entedia porque aqueles cachorros pomposos de pêlo branquinho tinham um lar e ele não, o que ele tinha de tão repulsivo? Sua cor não era agradável? Seus olhos eram tristes demais? Ele entendia que a humanidade caminhava a passos largos para o fim, mas ainda sim, queria experimentar, mesmo que por um segundo a sensação de ser amado, de ter um teto para proteger-se da chuva, uma casa e uma família que o protegesse de pessoas cruéis. Se cachorros sorrissem, ele sorriria agora ao pensar nisso, que idéia absurda, ele nunca teria isso. Ele caminhava sozinho e atravessava madrugadas a fio procurando de olhos baixos e nariz apurado algo para se alimentar mais não entendia o porquê seu alimento podre não enchia nem sua barriga e muito menos sua mente. Um dia encontrou uma garrafa quebrada na rua com um líquido vermelho rubro e com cheiro doce. Como ele não tinha discernimento para saber o que era sua sede sepulcral falou mais alto e ele ingeriu o líquido evanescente e de gosto amargo. Com isso sentiu-se leve e feliz, mesmo sem saber o motivo. Saiu cambaleando com o rabo entre as pernas e as grandes orelhas para cima, sua visão estava turva. Mas, seu pensamento estava nítido. Solidão, descaso, violência. E ele rodava na rua sem saber o que viria a seguir naquela madrugada fria. O ódio crescia. Quando uma forte luz jogou-se com demasiada força em cima dele, jogando seu corpo no asfalto gelado, ele olhou para a luz que emanava por toda a rua e viu apenas a silhueta de um casal de humanos. Com medo, apenas chorava, pois sabia o que lhe esperava. Sabia que aquele era o fim de sua tormenta, apesar da forte dor no estômago e no corpo, sabia que era enfim o dia de seu descanso, o dia que enfim ele conheceria a tão famosa paz que já ouviu tantas pessoas balbuciarem. A mesma paz que noite passada um bêbado cambaleante pediu ao chutar ele para longe “Me deixe em paz, cachorro imundo” Seria agora? Ele teria a sensação de paz? Ele teria por fim a sensação de proteção? Deixaria de sentir fome? Não sabia… Era tudo tão confuso, seus olhos pesavam cem kilos, aquele casal parado contra a luz ia sumindo aos poucos, um choro compulsivo pairava pelo ar, era tão estranho, ele era espectador de sua própria tragédia, ele observava seu fim como quem assiste ao fim de um filme ruim, feliz em ver enfim aquelas pequenas letras que passam de pressa, mostrando as pessoas que participaram daquele projeto ruim. Ele era isso, um projeto ruim que estava chegando ao fim, e ele estava feliz por isso. Fechou os olhos e esperou para que as últimas letras subissem a tela, e que as pessoas saíssem praguejando da sala de cinema barato. E assim fechou os olhos e sonhou… “Era um mar de pessoas todas nuas e imóveis, caídas sob um chão que não se via. Ele estava acima daqueles corpos e andava com duas patas. Olhava o céu vermelho, chovia um líquido vermelho viscoso. Manchava sua pele. Olhou para suas patas dianteiras e viu mãos humanas, iguais as que o maltratavam. Tocou o seu focinho e sentiu não pêlos mais sim uma pele quente e cabelos macios no topo de sua cabeça, viu suas pernas e suas genitálias humanas. Gritou muito, o som era abafado e agudo. A chuva de sangue aumentava e com ela seu desespero, corria entre os corpos e tropicava neles. Como num piscar de olhos sentiu sua pele queimar e suas pernas ficarem dormentes. A chuva cessou, ele olhou os corpos que estavam sendo lavados por um fogo intenso, não tinha força para correr, pois não sentia mais suas pernas, tomado pelo medo, incendiou junto com todos. Tornou-se aquilo que tanto repudiava…” Acordou, assustado, ainda não sentia suas pernas, e sua respiração estava rigorosa e difícil. Estava em uma sala fria e branca deitado em uma cama mais fria ainda. Cinzito voltará a ser cachorro. Era perturbador, ele havia desmaiado, e viu que nada que o esperava do outro lado era bom. Ele estava fadado ao sofrimento. Aquela sala parece o fim, o branco das paredes o engolia de forma feroz, e ele chorou, o mais baixo que pôde, não queria incomodar. Durante seu choro, que para ele pareceu interminável, sentiu uma mão quente acariciando sua cabeça, mexendo em seu pêlo feio, molhado e sujo, ele se esforçou para olhar, mas não conseguia ver quem era. Ouviu vozes, e uma mulher de aparência simpática abaixou-se perto dele “Me desculpe” Desculpar pelo o que? Tantos o machucaram e riram depois, porque ela pedia desculpas? “Me desculpe” ela balbuciava incansavelmente. Ele não estava entendendo nada, viu um homem de branco entrar na sala, sorrir para ele e dizer “Foi por pouco, mas você está aqui” Logo depois o homem voltou-se para a mulher “Ele é seu?” Cinzito sentiu seu estômago revirar, o gosto da rejeição fez-se forte. “Sim é, só quero levá-lo para casa, esta tendo uma noite difícil… Uma vida difícil” Ele não pôde acreditar “Casa”? Ela o levaria para a casa? Ele tinha uma casa por fim? Chorou mais e mais alto. Após dois dias internado naquela caixa fria e branca, e com visitas diárias da moça gentil, incluindo carinhos que ele amava e vários abraços de todos ali, foi embora, enrolado em um cobertor macio azul, no colo da moça simpática. Com a certeza de que sua vida havia começado do fim para o começo.
Carvalho e Malloy. Cinzito, do fim ao começo.
E de repente, eu me vi assim, completamente seu, vi a minha força amarrada no seu passo, vi que sem você não há caminho, eu não me acho, vi um grão de amor gritar dentro de mim como sonhei um dia. Quando o meu mundo era mais mundo e todo mundo admitia. Uma mudança muito estranha, mais pureza, mais carinho, mais calma, mais alegria no meu jeito de me dá, quando a canção se fez mais clara e mais sentida, quando a poesia realmente fez folia em minha vida, você veio me falar dessa paixão inesperada por outra pessoa. Mas não tem revolta não, quero que você se encontre, saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio… Amanhã será um novo dia e certamente eu serei mais feliz.
Caetano Veloso
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Algumas pessoas vão lhe encher o saco. Vão bater na sua porta, e sentar numa cadeira, e consumir seu tempo sem lhe acrescentar nada. Quando muitas pessoas nulas aparecem e seguem aparecendo você tem que ser cruel com elas, pois elas estão sendo cruéis com você. Você tem que botá-las pra correr. Algumas pessoas que são tão interessantes por si só, só trazem energia e luz próprias, mas a maioria não tem serventia alguma, nem para você, nem para elas mesmas. Tolerar os embotados não é sinal de humanidade, apenas aumenta seu próprio embotamento, e eles sempre deixam um pouco desse peso com você quando vão embora.
Charles Bukowski - Pedaços De Um Caderno Manchado De Vinho.
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Eu quero estar com você,
é tão simples ,
e tão complicado como isso.
Charles Bukowski
Existe curso para se formar em ignorância? Porque nunca vi tantos especialistas.
Allax Garcia.
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E nessa de cuidar, vou cuidar de mim. De mim, do meu coração e dessa minha mania de amar demais, de querer demais, de esperar demais.
Caio Fernando Abreu.