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Posted: 7 Nov, 2025 @ 10:11am

Durante um certo tempo, dez anos atrás, imbuído por um espírito de troça, eu chamava Murdered: Soul Suspect de "Mortão: Suspeito do Soul". Era uma tentativa de humor no extinto Twitter. Entretanto, chegou a hora de expurgar meus pecados e descobrir que o título da Airtight Games é o exato oposto de ser engraçado. É uma jornada sombria por uma realidade paralela perturbadora, marcada por um profundo sentimento de melancolia.

O título fisga pela premissa: controlamos Ronan, um investigador da polícia com um passado nebuloso, que está no encalço de um assassino serial. Ronan encontra seu alvo nos primeiros minutos do jogo, mas acaba sendo assassinado, arremessado pela janela de um prédio. Infelizmente, seu tormento não termina por aí. Ronan descobre que existe vida após a morte. Agora, ele é um espírito aprisionado no plano terreno, incapaz de seguir o caminho para a luz enquanto não desvendar esses crimes.

Na qualidade de um ateu cético e convicto, o mundo dos espíritos, para mim, é uma abstração, uma fantasia, um conto de fadas muito bem elaborado e disseminado ao longo de milênios. Ainda assim, isso não me impede de navegar por obras que exploram esse universo com um calafrio subindo pela espinha. Pode ser uma fagulha de dúvida, podem ser anos e anos de formação lutando para se impor em minha mente ou pode mesmo ser um pavor ancestral e inexplicável, entranhado a nível celular. Não importa. O fato é que Murdered: Soul Suspect não é um jogo de terror, não foi feito para dar sustos, mas é uma jornada que incomoda sem fazer esforço, muito mais pelo não dito do que por aquilo que é explicado.

Ronan percebe que o mundo dos espíritos é povoado de outros perdidos como ele. Alguns, o jogo permite que sejam ajudados, resolvendo seus dilemas terrenos e abrindo seus caminhos para que eles façam a passagem. Outros, apenas é permitido conversar e ouvir suas histórias. Ninguém está preso nessa cidade sem um motivo muito trágico ou muito perverso. Vemos um criminoso que foi para a cadeia e morreu e agora assombra a filha daquele que o entregou para a polícia. Nesses casos, Ronan é incapaz de interceder. Nem toda injustiça pode ser corrigida e isso se manifesta até mesmo no além.

Ainda assim, os encontros mais enigmáticos são com sombras, fantasmas tão arredios que você apenas consegue captar de forma fugaz e que desaparecem por completo quando Ronan se aproxima. Eles não são importantes de forma alguma para a trama ou para as mecânicas do jogo. Eles apenas estão ali. O tempo todo. Em todos os cenários. Tudo isso ajuda a construir uma atmosfera lúgubre em uma jornada que dura apenas uma noite e nunca vê a luz do Sol.

A cidade de Salem é o segundo personagem mais importante de Murdered: Soul Suspect. São duas arquiteturas conflitantes: as estruturas e os prédios físicos que Ronan consegue atravessar e as ruínas de um passado conturbado que se colocam como obstáculos, fantasmas da própria paisagem urbana. Descobrimos os horrores que marcaram essa cidade através de pistas e placas históricas, enquanto pessoas normais passeiam por essas mesmas ruas sem a menor noção de seus habitantes e histórias paralelas.

Mecanicamente, Murdered: Soul Suspect é simples, baseado quase inteiramente em investigação. Ronan vaga pelos ambientes em busca de pistas que o ajudem a decifrar o paradeiro de pessoas desaparecidas que podem ajudar a solucionar a identidade do assassino serial. É um dos sistemas de investigação mais suaves que já encontrei, um alento de tranquilidade diante dos exageros de um Batman: Arkham Origins ou das múltiplas idas e vindas de The Sinking City. A Airtight Games não quer que o jogador fique travado em momento algum e, se algumas partes demoram um pouco mais, é apenas porque essa ou aquela pista pode estar bem escondida. Reunidas as pistas, a conclusão é quase óbvia. Se Ronan errar em sua dedução, não há punição alguma, basta tentar outra vez.

Murdered: Soul Suspect peca ao tentar implementar um sistema de combate. Existem entidades no jogo que podem consumir a alma dos espíritos e é preciso evitá-las com furtividade ou destrui-las. Destruir é mais fácil e exige apenas se esgueirar por trás e acertar o comando QTE exigido. Não é frustrante, mas tampouco é divertido, é apenas um empecilho no caminho da fluidez da trama.

É no enredo que o jogo se destaca. Murdered: Soul Suspect brilha não apenas na atmosfera, mas também no ritmo da investigação policial e na forma como vai sustentando seus enigmas. Decifrei o mistério apenas alguns minutos antes do final e ainda assim fui surpreendido por um detalhe extra que abalou meu emocional.

Murdered: Soul Suspect acaba sendo uma aventura curta, mas que tem o tamanho exato para envolver o jogador em um véu desconfortável. Para mim, foi uma das gratas surpresas do ano. Começou como um meme pessoal bobo e terminou com gosto de saudades por Ronan e todos os personagens que o cercam. Descanse em paz, parceiro!

Análise publicada originalmente em: https://blog.retinadesgastada.com.br/2025/11/jogando-murdered-soul-suspect.html
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