Paula Mota's Reviews > Os Anos
Os Anos
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Salvar qualquer coisa do tempo onde não voltaremos a estar.
Este livro de Annie Ernaux deixou-me mal-humorada, e não era esse o efeito que eu esperava num livro tão aclamado. Talvez quem seja mais francófilo do que eu consiga retirar mais das infinitas referências culturais e históricas, mas para mim, “Os Anos” vive essencialmente do cinismo da autora e de um aborrecido “name-dropping”: listas e listas de marcas, locais, livros, filmes, canções, políticos, actores e outras personalidades. Abarcando um período que vai desde a Segunda Guerra até ao início do século XXI, salientando o mais significativo dos anos mais marcantes, o estilo almanaque desta obra não me conquistou.
A obra é escrita na terceira pessoa do singular, na primeira do plural e, menos frequentemente, na terceira pessoa do plural.
Nenhum “eu” na enunciação do que ela vê como uma espécie de autobiografia impessoal. Mas, antes”, “alguém” e “nós”, como se fosse agora a sua vez de contar os dias de um tempo anterior comum.
Sempre que a narrativa se foca no “ela”, Ernaux maravilhou-me. Consegue criar alguma distância de si mesma e ver-se fora do seu corpo e da sua vida, com passagens introspectivas e nostálgicas de grande clarividência.
Portanto, o livro a fazer era um instrumento de luta. Nunca abandonou esta ambição, mas agora, acima de tudo, gostaria de captar a luz que inunda rostos doravante invisíveis, toalhas de mesa cheias de comida desaparecida, essa luz que já lá estava, dentro das narrativas dos domingos de infância, e nunca mais deixou de descer sobre as coisas no momento em que são vividas – uma luz de outrora.
Quando usa a voz do “nós”, acho-o um exercício arrogante e redutor. Ao falar em nome de toda uma geração acaba por cair em generalizações e ideias feitas, que ainda se agudizam mais quando se refere a “eles”, numa demarcação clara de um grupo que desdenha e onde não se inclui.
Este é o terceiro livro que leio de Annie Ernaux, portanto, sei que ela é brusca e frontal, mas custou-me ler a forma deselegante como ela se refere a Simone de Beauvoir. Ainda que eu saiba que todos os santos têm pés de barro, achei mesquinho da parte de Ernaux só se referir a esse grande nome do feminismo troçando do seu aspecto, inclusive no funeral de Sartre, onde a autora já contava com 72 anos.
Quanto a Sartre, em cuja morte já tínhamos pensado antes, ela mostrou-se com grande pompa, um milhão de pessoas a desfilar atrás do caixão e o turbante de Simone de Beauvoir a deslizar no momento da descida à terra.
Talvez depois desta leitura eu esteja contaminada pelo chauvinismo de que acusam os franceses, mas “Os Anos” é de tal forma centrado na cultura francesa e na visão que a autora quer dar ao seu livro, que no ano de 1974, diz ela que “já nada acontecia na primavera, fosse em Paris ou em Praga”, esquecendo que, nessa mesma Primavera, houve uma revolução dois países ao lado, porque isso, claramente, não encaixa na sua narrativa derrotista. A narrativa de Ernaux é a do desencanto, a da amargura, a ideia de que as esperanças do pós-guerra saíram defraudas e que os ideais do Maio de 68 não vingaram porque somos todos uns burgueses e uns consumistas, que preferimos passar os fins de semana nos centros comerciais e pôr os filhos à frente de dispositivos eletrónicos que lhes tiraram a vontade de ler.
Abríamos os olhos e víamos uma mulher, completamente vestida a entrar no mar, com um casaco, saia comprida e um lenço muçulmano a cobrir-lhe a cabeça. Um homem, de tronco nu e calções, segurava-a pela mão. Era uma visão bíblica cuja beleza se transformava em nós numa emoção assustadora e livre.
Este livro de Annie Ernaux deixou-me mal-humorada, e não era esse o efeito que eu esperava num livro tão aclamado. Talvez quem seja mais francófilo do que eu consiga retirar mais das infinitas referências culturais e históricas, mas para mim, “Os Anos” vive essencialmente do cinismo da autora e de um aborrecido “name-dropping”: listas e listas de marcas, locais, livros, filmes, canções, políticos, actores e outras personalidades. Abarcando um período que vai desde a Segunda Guerra até ao início do século XXI, salientando o mais significativo dos anos mais marcantes, o estilo almanaque desta obra não me conquistou.
A obra é escrita na terceira pessoa do singular, na primeira do plural e, menos frequentemente, na terceira pessoa do plural.
Nenhum “eu” na enunciação do que ela vê como uma espécie de autobiografia impessoal. Mas, antes”, “alguém” e “nós”, como se fosse agora a sua vez de contar os dias de um tempo anterior comum.
Sempre que a narrativa se foca no “ela”, Ernaux maravilhou-me. Consegue criar alguma distância de si mesma e ver-se fora do seu corpo e da sua vida, com passagens introspectivas e nostálgicas de grande clarividência.
Portanto, o livro a fazer era um instrumento de luta. Nunca abandonou esta ambição, mas agora, acima de tudo, gostaria de captar a luz que inunda rostos doravante invisíveis, toalhas de mesa cheias de comida desaparecida, essa luz que já lá estava, dentro das narrativas dos domingos de infância, e nunca mais deixou de descer sobre as coisas no momento em que são vividas – uma luz de outrora.
Quando usa a voz do “nós”, acho-o um exercício arrogante e redutor. Ao falar em nome de toda uma geração acaba por cair em generalizações e ideias feitas, que ainda se agudizam mais quando se refere a “eles”, numa demarcação clara de um grupo que desdenha e onde não se inclui.
Este é o terceiro livro que leio de Annie Ernaux, portanto, sei que ela é brusca e frontal, mas custou-me ler a forma deselegante como ela se refere a Simone de Beauvoir. Ainda que eu saiba que todos os santos têm pés de barro, achei mesquinho da parte de Ernaux só se referir a esse grande nome do feminismo troçando do seu aspecto, inclusive no funeral de Sartre, onde a autora já contava com 72 anos.
Quanto a Sartre, em cuja morte já tínhamos pensado antes, ela mostrou-se com grande pompa, um milhão de pessoas a desfilar atrás do caixão e o turbante de Simone de Beauvoir a deslizar no momento da descida à terra.
Talvez depois desta leitura eu esteja contaminada pelo chauvinismo de que acusam os franceses, mas “Os Anos” é de tal forma centrado na cultura francesa e na visão que a autora quer dar ao seu livro, que no ano de 1974, diz ela que “já nada acontecia na primavera, fosse em Paris ou em Praga”, esquecendo que, nessa mesma Primavera, houve uma revolução dois países ao lado, porque isso, claramente, não encaixa na sua narrativa derrotista. A narrativa de Ernaux é a do desencanto, a da amargura, a ideia de que as esperanças do pós-guerra saíram defraudas e que os ideais do Maio de 68 não vingaram porque somos todos uns burgueses e uns consumistas, que preferimos passar os fins de semana nos centros comerciais e pôr os filhos à frente de dispositivos eletrónicos que lhes tiraram a vontade de ler.
Abríamos os olhos e víamos uma mulher, completamente vestida a entrar no mar, com um casaco, saia comprida e um lenço muçulmano a cobrir-lhe a cabeça. Um homem, de tronco nu e calções, segurava-a pela mão. Era uma visão bíblica cuja beleza se transformava em nós numa emoção assustadora e livre.
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Os Anos.
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Reading Progress
April 30, 2021
–
Started Reading
April 30, 2021
– Shelved
April 30, 2021
–
10.5%
""Tinham pena de não ter nascido naquele outro tempo, ou perto dele, quando foi preciso ser alistado, partir por essas estradas e dormir em cima o feno como os boémios. Desse tempo não vivido guardariam sempre a vontade de um lamento. A memória dos outros ludibriava-as com uma nostalgia velada por essa época, que por tão pouco lhes tinha escapado, na esperança de a poderem viver um dia.""
page
21
April 30, 2021
–
18.0%
""Tudo o que havia em casa tinha sido comprado antes da guerra. (...) Os casacos eram arranjados, os colarinhos das camisas virados, os fatos de domingo passavam a ser de todos-os-dias. (...) O jornal servia para embrulhar legumes, secar por dentro os sapatos molhados, limpar o rabo na casa de banho. (...)
Vivíamos quase na merda. E ríamos.""
page
36
Vivíamos quase na merda. E ríamos.""
May 2, 2021
–
30.5%
""Nada, nem a inteligência, nem os os estudos, nem a beleza, contava tanto como a reputação sexual de uma rapariga, o mesmo é dizer o seu valor no mercado do casamento, onde as mães, seguindo o exemplo das suas próprias mães, se armavam em guardiãs.
(...) Até ao casamento, as histórias de amor desenrolavam-se sob o olhar e o julgamento dos outros.""
page
61
(...) Até ao casamento, as histórias de amor desenrolavam-se sob o olhar e o julgamento dos outros.""
May 3, 2021
–
45.0%
"Pensar, falar, escrever, trabalhar, existir de outro modo:julgávamos não ter nada a perder por experimentar tudo. 1968 era o primeiro ano do mundo.Ter conhecimento da morte do general de Gaulle, numa manhã de novembro, transmitia-nos um sentimento de incredibilidade-portanto, aos nossos olhos, ele era imortal.(..)A sua morte vinha pôr fim àquele tempo que existira antes de maio, esses anos já longínquos da nossa vida"
page
90
May 3, 2021
–
52.5%
""Simone de Beuavoir - cujo aparecimento pela primeira vez na televisão, numa entrevista, de turbante e unhas pintadas de vermelho, estilo leitora da sina, nos tinha dececionado, pois já era muito tarde, ela não o deveria ter feito.
[Julgava que Annie Ernaux era feminista, mas já caiu do pedestal ao criticar outra mulher pelo seu aspecto e não pelo que faz ou diz. Vergonha alheia.]"
page
105
[Julgava que Annie Ernaux era feminista, mas já caiu do pedestal ao criticar outra mulher pelo seu aspecto e não pelo que faz ou diz. Vergonha alheia.]"
May 4, 2021
–
75.0%
""A imagem que tem do seu livro, não existindo ele ainda, e da sensação que ele deverá transmitor, é a de que permaneceu nela depois da leitura, aos 12 anos, de E Tudo o Vento Levou, ou mais tarde a de Em Busca do Tempo Perdido, e mais recentemente a de Vida e Destino, uma torrente de luz e sombra a deslizar sobre os rostos. ""
page
150
May 4, 2021
–
82.5%
""Os artigos para o regresso às aulas surgiam nas prateleiras quando os alunos estavam de férias, os brinquedos de Natal no dia a seguir ao de Todos os Santos, e os fatos de banho em fevereiro. O tempo das coisas sugava-nos e obrigava-nos a viver sem parar, a correr atrás desses dois meses de avanço.""
page
165
May 6, 2021
–
Finished Reading
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message 1:
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Celeste
(new)
May 06, 2021 06:52AM
Será que ela usa o "nós" como plural majestático? Resenha muito bem fundamentada. Gostei.
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Obrigada, Celeste. Acho que ela pretende ser a voz de todos os franceses mais ou menos da idade dela, o que pode ser igualmente pedante.
Obrigada, Cláudia! Parece funcionar com muita gente, pelas belas críticas que tenho visto, mas comigo, nem por isso...
Rodrigo wrote: "Ótima resenha!"Obrigada, Rodrigo! Se calhar, ficou desiludido por eu não ter gostado tanto, mas não foi a leitura que eu estava à espera.
Paula wrote: "Rodrigo wrote: "Ótima resenha!"Obrigada, Rodrigo! Se calhar, ficou desiludido por eu não ter gostado tanto, mas não foi a leitura que eu estava à espera."
Ah, mas os seu pontos são ótimos mesmo. Clareou pra mim o uso dos pronomes. Eu havia prestado atenção mais nas análises que a narradora do "ela" fazia, que são as melhores partes do livro, como você bem as descreveu. Aquelas descrições das fotografias sempre me prendiam e eu, que não sei tanto sobre a história da França, acabei vendo interesse nessa síntese dela (o estilo almanaque), que é pessoal, mas acaba se tornando uma análise sociológica desse período pós-guerra, exatamente pela troca dos pronomes - a proximidade e a distância, a identificação. Há passagens belíssimas, lembro-me daquelas sobre sua mãe ou mesmo sobre alguns temas genéricos como o tempo e a história. Se o romance tem essas qualidades, não dá pra ignorar as conclusões que chegamos mediante o conteúdo dele: é de um pessimismo que, por conta das generalizações que você apontou, acaba ficando meio "monótono" (pra usar um adjetivo brando) nas últimas décadas da saga (já vislumbramos desde cedo aonde ela quer chegar). Eu não sou exatamente contra as generalizações, pra mim elas servem como perspectiva de onde se partir a reflexão. Mas, também não a podemos as levar muito a sério, já que, se tais afirmações não são necessariamente irrefletidas, elas são necessariamente redutoras. E a sua análise do "nós" é bem acertada, nesse sentido: é redutora, como qualquer generalização. Mas, preciso dizer que gostei da perspectiva da autora, se não do todo (a "sociedade do espetáculo" que ela descreve não me agradou, particularmente), mas de partes, como quando ela apresenta a perspectiva da geração de seus avós, de seus pais, daquela ideia "secreta" do saudosismo de certos indivíduos da "glória" da guerra, como ela a apresenta. Achei bem perspicaz. Meu francês é meio fajuto e aqui no Brasil só há Os anos no mercado traduzido. Queria conhecer mais hahah. Ouvi notícias que um outro dela, chamado "Um lugar" (algo assim) sairá esse ano. Veremos. Abraço! :)
Muito boa resenha, obrigado Paula.Eu já lhe peguei 2 vezes, mas encostei, nada do que li nas primeiras páginas me agarrou. Mas continua a curiosidade porque amiúde vejo-a citada.
Esta tua resenha apesar de crítica, deu-me a perceber um pouco melhor do que trata o livro, e por isso talvez lhe volte a dar outra oportunidade :)
Paulinha, adorei o teu texto, muito pertinente e bem fundamentado. Como sabes, tenho esta obra na wishlist, mas, agora, lendo o que escreveste, já não sei se a quero nas minhas estantes... Se existir nas da minha biblioteca, trago-a!
Ana wrote: "Paulinha, adorei o teu texto, muito pertinente e bem fundamentado. Como sabes, tenho esta obra na wishlist, mas, agora, lendo o que escreveste, já não sei se a quero nas minhas estantes... Se exist..."Acho a biblioteca, como no meu caso, uma boa escolha, mas não quero demover ninguém de ler este livro. Sabes que quando começo a embirrar...
Nelson wrote: "Muito boa resenha, obrigado Paula.Eu já lhe peguei 2 vezes, mas encostei, nada do que li nas primeiras páginas me agarrou. Mas continua a curiosidade porque amiúde vejo-a citada.
Esta tua resenh..."
Obrigada, Nelson. Assim que vi que tinhas comentado, como não sabia que já tinhas tentado lê-lo, pensei logo que seria mais do teu agrado, pois pareces-me mais virado para a literatura e cultura francesa do que eu. Já que o tens, espero que o leias até ao fim, porque é um bom livro para "discutir".
Rodrigo wrote: "Paula wrote: "Rodrigo wrote: "Ótima resenha!"Obrigada, Rodrigo! Se calhar, ficou desiludido por eu não ter gostado tanto, mas não foi a leitura que eu estava à espera."
Ah, mas os seu pontos são ó..."
Gostei muito do seu ponto de vista, Rodrigo, e vejo que até concordamos nos pontos fortes do livro. Eu não consegui ler "O Lugar" que é sobre a morte do pai nem "Une Femme" sobre o Alzheimer da mãe, mas gostei de "Paixão Simples" sobre o caso que ela teve com o tal russo, e ainda mais de "Evenement", sobre o aborto que fez na faculdade. Espero que ela seja bastante editada por aí, porque é sem dúvida interessante. Boas leituras, Rodrigo!
Dear Paula, congratulations on another in-depth, pitch-perfect review! No wonder the 'name-dropping' and placing France on a pedestal sort of uncritically didn't win you over. I would find it annoying also. Nonetheless, the more I read about Ernaux' books, the more I'd like to read them.😀
Jola wrote: "Dear Paula, congratulations on another in-depth, pitch-perfect review! No wonder the 'name-dropping' and placing France on a pedestal sort of uncritically didn't win you over. I would find it annoy..."Do read them, dear Jola! She's an interesting author. As I had read Simple Passion and Happening before this one, I was ready for her bluntness but not for her moralizing and cynical tone. I'm a bit of a nitpicker and this book provided me lots of fodder. For instance, she makes fun of De Beauvoir's turban. How dare she? Nobody disses my girl Simone. :D
I can relate to your anger, dear Paula! I guess jealousy might be the reason for Ernaux' problem with Simone.
Wow you didn’t like this one, Paula as you mentioned to me. However you do raise some good points especially the de Beauvoir part. I was perplexed but didn’t know that much about this aspect of history.
David wrote: "Wow you didn’t like this one, Paula as you mentioned to me. However you do raise some good points especially the de Beauvoir part. I was perplexed but didn’t know that much about this aspect of his..."I was in such a foul mood when I finished this, David! :-) I can't explain why, but she rubs me the wrong way and I've decided I'm done with her.




