Paula Mota's Reviews > Encontro
Encontro
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2,5*
Mas o que é necessário para chegar lá não é aquilo de que precisamos quando lá chegamos.
Gosto de obras que se foquem em questões como a classe, a raça e o sexismo, mas quando se combinam estes três temas, para que resulte comigo, tem de ser tudo não só bem doseado com os aspectos pessoais das personagens, para elas não parecerem cartazes, como também integrado na narrativa de forma muito subtil, para não parecer uma tese. Para minha grande exasperação, “Encontro” tem passagens demasiado panfletárias e o estilo fragmentário, que geralmente aprecio, associado a uma escrita pretensiosa só contribui para a minha alienação.
Que mais posso dizer? Quantos pormenores são suficientes? Suficientes para eu soltar os pensamentos ou a compreensão ou até uma coisa básica, humana, empática, dentro dele. Pura e simplesmente não está lá. Ou eu é que não consigo interpelá-la. A minha única ferramenta de expressão é a língua deste lugar. Os seus preconceitos e pressuposições infundem todo o raciocínio que eu poderia construir a partir dela. Estas palavras, símbolos organizados na página (ela próprio um veículo puro, imaculado, para a elucidação objetiva do pensamento), estas unidades básicas da civilização: com o poderiam elas abrigas más intenções.
Tive de ler este parágrafo cinco – cin-co – vezes para não achar que estava a perder capacidades mentais.
A narradora, a custo de muito trabalho, muita submissão e assimilação, chegou a um cargo importante no mercado financeiro, um mundo dominado por homens brancos, alguns com tendência para o assédio sexual. É amiga de uma mulher branca, tem um namorado branco de uma boa família, que a trata com cortesia mas não como uma igual. Antes de ir passar um fim de semana com uma família que despreza, com um namorado por quem não parece sentir nada, sabe que sofre de uma doença à qual quer capitular, pondo assim fim a uma vida de falsidade e humilhação.
Sobreviver torna-me participante na narrativa deles. Tenha eu sucesso ou fracasso, a minha existência só serve para reforçar este constructo. Rejeito-o. Rejeito estas opções. Rejeito esta vida. Sim, compreendo a dor. A dor é transformadora – transcendente – a destruição da construção. Um regresso, misericordioso, ao pó.
Natasha Brown tem várias mensagens para passar, eu compreendi-as tanto quanto é possível a uma mulher branca que vive noutro país, mas não vendo neste livro nada de novo, nada que eu não tivesse ouvido e lido antes com palavras mais eloquentes, fechei-o sem compreender o furor com que foi recebido pela maioria dos leitores e dos críticos.
Mas o que é necessário para chegar lá não é aquilo de que precisamos quando lá chegamos.
Gosto de obras que se foquem em questões como a classe, a raça e o sexismo, mas quando se combinam estes três temas, para que resulte comigo, tem de ser tudo não só bem doseado com os aspectos pessoais das personagens, para elas não parecerem cartazes, como também integrado na narrativa de forma muito subtil, para não parecer uma tese. Para minha grande exasperação, “Encontro” tem passagens demasiado panfletárias e o estilo fragmentário, que geralmente aprecio, associado a uma escrita pretensiosa só contribui para a minha alienação.
Que mais posso dizer? Quantos pormenores são suficientes? Suficientes para eu soltar os pensamentos ou a compreensão ou até uma coisa básica, humana, empática, dentro dele. Pura e simplesmente não está lá. Ou eu é que não consigo interpelá-la. A minha única ferramenta de expressão é a língua deste lugar. Os seus preconceitos e pressuposições infundem todo o raciocínio que eu poderia construir a partir dela. Estas palavras, símbolos organizados na página (ela próprio um veículo puro, imaculado, para a elucidação objetiva do pensamento), estas unidades básicas da civilização: com o poderiam elas abrigas más intenções.
Tive de ler este parágrafo cinco – cin-co – vezes para não achar que estava a perder capacidades mentais.
A narradora, a custo de muito trabalho, muita submissão e assimilação, chegou a um cargo importante no mercado financeiro, um mundo dominado por homens brancos, alguns com tendência para o assédio sexual. É amiga de uma mulher branca, tem um namorado branco de uma boa família, que a trata com cortesia mas não como uma igual. Antes de ir passar um fim de semana com uma família que despreza, com um namorado por quem não parece sentir nada, sabe que sofre de uma doença à qual quer capitular, pondo assim fim a uma vida de falsidade e humilhação.
Sobreviver torna-me participante na narrativa deles. Tenha eu sucesso ou fracasso, a minha existência só serve para reforçar este constructo. Rejeito-o. Rejeito estas opções. Rejeito esta vida. Sim, compreendo a dor. A dor é transformadora – transcendente – a destruição da construção. Um regresso, misericordioso, ao pó.
Natasha Brown tem várias mensagens para passar, eu compreendi-as tanto quanto é possível a uma mulher branca que vive noutro país, mas não vendo neste livro nada de novo, nada que eu não tivesse ouvido e lido antes com palavras mais eloquentes, fechei-o sem compreender o furor com que foi recebido pela maioria dos leitores e dos críticos.
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Encontro.
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March 25, 2022
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March 25, 2022
– Shelved
March 25, 2022
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51.67%
"A médica inclina-se para a frente e fala baixinho. Diz que sou forte, uma guerreira. Diz que dá para notar. Não posso não fazer nada, isso é... isso é suicídio. Diz-me para ser responsável. Pensar na minha família. Fazer uma escolha. Nada é uma escolha.
(...)
Não vai ser bonito -avisa-me ela -, não é poético. Não será como imagino. Oh, sim, eu sei disso, mas... que me importa a beleza?"
page
62
(...)
Não vai ser bonito -avisa-me ela -, não é poético. Não será como imagino. Oh, sim, eu sei disso, mas... que me importa a beleza?"
March 25, 2022
–
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message 1:
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diario_de_um_leitor_pjv
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Apr 16, 2022 07:07AM
Não o li. Mas toda a mensagem que passou nos media e nas rede explorava a obra como um "panfleto". Depois de ler o seu comentário encerre qualquer veleidade de ler o livro.
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diario_de_um_leitor_pjv wrote: "Não o li. Mas toda a mensagem que passou nos media e nas rede explorava a obra como um "panfleto". Depois de ler o seu comentário encerre qualquer veleidade de ler o livro."Podemos tratar-nos por tu? :-)
Mas como também elogiavam a forma e a posição da protagonista, achei que haveria algum fundamento. Não o vi!
Olha que bem… não reparei que já tinhas lido isto. Depois dos teus comentários (e como o ia ler) vou removê-lo da minha lista… 😉
Luís, não sei, não sei, ainda está para aqui alguma obra-prima e vou desviar-te dela com a minha negatividade! :-)
Ainda que tenha sido tão badalado, se tivesse potencial de obra-prima, não dirias dela o que disseste. Acredito que o “hype” tenha sido pelo tema e não pela obra…
Joana wrote: "Acreditas que a tua review me abriu mais a curiosidade? Hei de o ler e depois logo to direi"Joana, eu acredito piamente que numa review tanto podemos afastar como atrair leitores, daí a utilidade de escrever umas palavrinhas para justificar as estrelas ou o DNF. Diz coisas se o leres!
Dear Paula, the Portuguese cover is sooo different from the original that at first, I didn't recognize the book. When I did, I was surprised it was the novel which had been praised so much. So sad it turned out highly frustrating and I think I would have minded the things you mentioned, like the lack of subtlety and depth while conveying important truths which makes them sound like slogans from a pamphlet. Thanks for your outstanding review, I'll treat it as a warning.
Jola wrote: "Dear Paula, the Portuguese cover is sooo different from the original that at first, I didn't recognize the book. When I did, I was surprised it was the novel which had been praised so much. So sad ..."Thank you, dear Jola! Yes, this Portuguese publisher always chooses very generic covers. The premise was great but it wasn't well executed at all and I couldn't empathize with the main character. Too much hype perhaps...

