Paula Mota's Reviews > Viagem no Proleterka

Viagem no Proleterka by Fleur Jaeggy
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bookshelves: literatura-suíça

4,5*

Duas palavras acompanham-me como um estribilho: “viver” e “experiência”. Imaginam-se palavras para narrar o mundo e para o substituir. As duas palavras devem cumprir-se.

Disse Susan Sontag que Fleur Jaeggy é uma escritora selvagem, e eis o seu segundo livro publicado em Portugal a comprová-lo. Quem não gostou da jovem colegial desapegada de “Felizes Anos de Castigo”, escusa de lê-lo, já que é mais do mesmo mas a alguns graus abaixo de zero; quem, por outro lado, ficou hipnotizado com o bisturi com que a autora disseca uma infância e uma adolescência caracterizadas por um sentimento de orfandade, tem aqui um repasto tão farto quanto o minimalismo lhe pode oferecer.

É para o meu bem. Uma frase venenosa. Mas soa bem. Sei que aquela frase nunca foi de bom augúrio. Desde então piorou a minha situação de menor de idade. Há que proteger-se quando se ouvem ditames semelhantes. Quando se é refém do bem.

Quantas vezes pode uma pessoa ficar órfã? Em teoria, ao perder o pai e a mãe, mas no caso da protagonista de “Proleterka”, tantas vezes quantas é abandonada e passa de mão em mão como um estorvo, até ser posta num colégio interno, e quando pensa que já todos aqueles que decidiam o seu destino estavam enterrados, surge a surpresa do final, que a faz pôr em causa toda a sua identidade.

Naquela época, não pensava nos mortos. Eles vêm tarde ao nosso encontro. Chamam quando sentem que nos tornámos presas e é hora de ir à caça.

Antes de mais, esta rapariga sem nome é a filha de Johannes…

A pessoa que me é inverosimilmente desconhecida. (…) Nenhuma intimidade. E, no entanto, um laço anterior às nossas existências. Um conhecimento no estranhamento total.

…um homem do norte que veio em jovem para o cantão mais a sul devido aos problemas de saúde do irmão inválido, onde conhece uma rapariga de origem italiana com quem se corresponderá mais tarde em francês, unindo nesta obra três das línguas da Suíça e polvilhando de termos alemães, de uma forma quase clínica, um texto originalmente escrito em italiano.
Quando a protagonista era muito pequena, a mulher de Johannes deixa-o e leva a filha, entregando-a depois à sua mãe para ir refazer a vida noutro continente.

Eram mulheres que governavam casas e pessoas. Longevas. Criados os filhos, as flores e as cartas tinham a primazia. As flores tornaram-se uma obsessão. Bem como as doenças e os parasitas. Que corroem folhas e pétalas. Mas as flores e as pétalas delas estavam quase sempre sãs, ao contrário dos jardins dos outros, que estavam doentes. (…) As mulheres daquela família tinham uma paixão autística por camélias, rosas e nada mais. Escassa propensão para os seres humanos.

Tendo apenas direitos de visita, não é mais sentimental a relação que Johannes tem com a filha.

Lacónico, Johannes apontava o que a filha fazia, aonde a levavam, o estado de saúde. Frases breves, sem comentários. Como respostas a um questionário. Não há ali impressões, sentimentos. A vida é simplificada, como se não existisse.

Sendo duas pessoas “em salas de espera”, é já um pai idoso e doente que convida a filha para um cruzeiro às ilhas gregas, a primeira e última viagem juntos, ele exausto e derrotado, ela prestes a fazer 16 anos, com as hormonas em ebulição e nenhuma disciplina.

O conhecimento é o único perdão, penso, que se pode alcançar.

Não há vislumbre de emoção em “Proleterka”, escrito com uma esterilidade equiparável à das relações entre as personagens, uma frieza que aflige e se propaga. É um livro que pode ser apreciado pelo seu valor estético, o que me trouxe reminiscências de Marguerite Duras, ou, dependendo da experiência do leitor, como um proverbial dedo na ferida.

As crianças desinteressam-se dos pais quando são abandonadas. Não são sentimentais. São passionais e frias. De certa forma, algumas abandonam os afetos, os sentimentos, como se fossem coisas. Com determinação, sem tristeza. Tornam-se alheias. Por vezes, hostis. Já não são elas os seres abandonados, mas são elas que batem mentalmente em retirada. E vão-se embora. (…) Algumas crianças governam-se sozinhas. O coração, cristal incorruptível. Aprendem a fingir.
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Reading Progress

October 21, 2024 – Started Reading
October 21, 2024 – Shelved
October 21, 2024 –
page 9
7.5% ""Passaram muitos anos, e esta manhã tenho um desejo repentino: queria as cinzas do meu pai. Depois da cremação, mandaram-me um pequeno objeto que tinha resistido ao fogo. Um prego. Restituíram-no intacto.""
October 22, 2024 –
page 24
20.0% ""Como se fosse a nossa obsessão, de pai e filha. A de não estarmos tristes, de escondermos a tristeza que nos marcou sem motivo. Para ele, aquela viagem é importante. Pensei, antes de partir, que o destino me era indiferente. A viagem à Grécia fazia parte da minha educação. É a nossa primeira viagem - e parece a última. Johannes, a pessoa que me é inverosimilmente desconhecida. O meu pai. Nenhuma intimidade.""
October 23, 2024 –
page 36
30.0% ""Não responde. Parecia-me que o assunto a incomodava. Ou não era o momento adequado. Há momentos em que se pode dizer o que se pensa ou fazer perguntas, outros em que não. São os chamados momentos errados. E, uma vez que os momentos errados enchem as horas, acaba-se por não perguntar mais. Ela não perdoava se eu errava. Em não perdoar, era magnânima, tolerante, justa.""
October 24, 2024 –
page 63
52.5% ""Poucas vezes faltámos a um funeral de família. Decorriam geralmente em lugares turísticos. Em lugares amenos. Onde existe um lago. Na refeição fúnebre, não era infrequente que alguém falasse da própria tentativa falhada de suicídio. Muitos deles viveram muito tempo.""
October 25, 2024 –
page 104
86.67% ""A verdade não tem ornamentos. Como um cadáver lavado, penso.""
October 31, 2024 – Finished Reading

Comments Showing 1-7 of 7 (7 new)

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message 1: by Leonor (new) - added it

Leonor Gostei muito do que li, Paulinha. Já veio para a lista.


Paula Mota Que bom! Leonor, é mesmo daquelas leituras que só ressoam no leitor dependendo da sua experiência.


message 3: by David (new) - added it

David Hi Paula, I have wanted to read her work for awhile as every review I read is very positive, yours especially. Comparing her to Duras says a lot.


Paula Mota David wrote: "Hi Paula, I have wanted to read her work for awhile as every review I read is very positive, yours especially. Comparing her to Duras says a lot."
I hope you give her try some day, David! Her writing is very sparse but hard-hitting.


Ilse Excellent write-up, Paula - you evoked the atmosphere of this chilling novel so well the reminiscence of it made me shiver. I thought this even more powerful than 'Sweet Days of Discipline. Of course you had me at the edge of my chair comparing her writing to Duras :). I have only read a couple of Duras' books so far and wonder now which books of Duras you were particularly thinking of reading Jaeggy.


Paula Mota Ilse wrote: "Excellent write-up, Paula - you evoked the atmosphere of this chilling novel so well the reminiscence of it made me shiver. I thought this even more powerful than '[book:Sweet Days of Discipline|14..."
Thanks, Ilse! "Sweet Days of Discipline" is a great entryway into Jaeggy's works, but this one is more polished. It's her stacatto in general that makes me think of Duras, but also the detachment among characters that I found in "Malady of Death" and "Destroy She Said" and a certain morbidity in "Moderato Cantabile", one of my favourites by her.


Ilse Thank you, Paula! I entirely agree on this being more polished than 'Sweet Days' - which adds to its glaciality imho. I loved 'Moderato Cantabile' - the threatening mood, Anne Desbaresdes' obsession with love and death. I'll look for 'Malady of Death' and 'Destroy she said' when I would manage to go to France again next year.


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