A cor do inconsciente Quotes

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A cor do inconsciente: Significações do corpo negro A cor do inconsciente: Significações do corpo negro by Isildinha Baptista Nogueira
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“O sentimento de fealdade é reverberação corporal de humilhação racial: sinto-me cada vez mais feio à medida que sou cada vez mais maltratado e abordado como inferior. O encolhimento da beleza vem sempre acompanhado de encolhimento moral: o corpo feio é o corpo submisso, pode tornar-se até aversivo quando demais intimidado. Acrescente-se que é tênue a linha de licenciosidade que separa o corpo usado e o corpo abusado: a exploração econômica dá facilmente em exploração sexual. É porque houve resistência que a beleza dos pretos é comerciada: a exploração mata ou explora o que não tenha conseguido matar. O desprezo político derrota o corpo ou vira cobiça do corpo não derrotado.”
Isildinha Baptista Nogueira, A cor do inconsciente: Significações do corpo negro
“Freud denomina “romance familiar do neurótico” o conjunto das representações ligadas a esse processo de afastamento em relação aos pais. Uma vez ultrapassada essa fase, o “romance familiar do neurótico” quase sempre é esquecido e raramente se constitui numa lembrança consciente, que pode ser revelada pela psicanálise.
O romance familiar é produto de uma “atividade imaginativa estranhamente acentuada”, que é uma característica essencial dos neuróticos e de pessoas relativamente inteligentes. A atividade imaginativa que se ocupa das relações familiares aparece, na criança, nas brincadeiras até o período anterior à puberdade. Os devaneios, que são comuns até depois da puberdade, são um exemplo da atividade imaginativa.
Esses devaneios correspondem a “realização de desejos e uma retificação da vida real”. Têm dois objetivos principais: um erótico e um ambicioso – embora o objetivo erótico esteja comumente oculto sob o último.
Nesse período de grande atividade imaginativa, a criança se dedica a libertar-se dos pais, que já não ocupam mais um lugar de alta estima, e os substituir por outros, “em geral de uma posição social mais elevada”: “Nessa conexão ela lançará mão de quaisquer coincidências oportunas de sua experiência real, tal como quando trava conhecimento com o senhor da Casa Grande ou com o dono de alguma grande propriedade, se mora no campo, ou com algum membro da aristocracia, se mora na cidade.”
Isildinha Baptista Nogueira, A cor do inconsciente: Significações do corpo negro
“Em Psicologia das Massas e Análise do Ego, Freud apontou, entre outros tipos de identificação, aquele em que se dá a identificação do sujeito com um traço do objeto, ou seja, com um traço dos seres que amamos ao longo da vida. Tal concepção supõe que esse traço corresponde a uma marca que se repete ao longo da história do sujeito com os sucessivos parceiros, e que nada mais é do que a somatória de traços que representa o próprio sujeito. Daí a ideia de Lacan de que o sujeito é o traço comum dos objetos amados e perdidos ao longo da vida, o que ele chamou de traço Unário.
É o que explica Nasio: “O outro amado é a imagem que amo de mim mesmo, o outro amado é um corpo que prolonga o meu; o outro amado é um traço repetitivo com o qual me identifico.”
Isildinha Baptista Nogueira, A cor do inconsciente: Significações do corpo negro
tags: amor
“Não há outra possibilidade de o inconsciente vir à tona senão no dizer. No entanto, no dito, a verdade do sujeito propriamente dita estará perdida na sua integridade, visto que aí aparece sob o disfarce do sujeito do enunciado, única forma da “verdade do sujeito” poder emergir, ainda que se “meio dizendo”.
Não só o sujeito emerge de maneira disfarçada: também seu discurso articulado é uma forma de disfarce em relação à verdade do desejo do sujeito.
Portanto, o “eu” que aparece no discurso como sujeito do enunciado, capturado pela ordem subjetiva, acaba por ocultar o sujeito do desejo. Nesse ato de ocultação, se dará a objetivação imaginária do sujeito, que se vê identificado com as representações que aparecem no discurso. Essas representações ou “lugares-tenentes”, em que o sujeito se perde em sua verdade, acabam por reduzi-lo a uma representação imaginária, de que o sujeito lançará mão para se identificar.
Nesse sentido, o eu (sujeito do enunciado) aparece como substituto do sujeito em si (sujeito da enunciação): na medida em que este último escapa à possibilidade de ser representado, é o eu que aparecerá para o sujeito como o seu representante. Trata-se, portanto, de verificar como o eu pôde ser construído como representante do sujeito.”
Isildinha Baptista Nogueira, A cor do inconsciente: Significações do corpo negro
tags: lacan
“O negro, no entanto, é aquele que traz a marca do “corpo negro”, que expressa, escatologicamente, o repertório do execrável que a cultura afasta pela negativização. Vítima das representações sociais que investem sua aparência daqueles sentidos que são socialmente recusados, o negro se vê condenado a carregar na própria aparência a marca da inferioridade social. Para o indivíduo negro, o processo de se ver em um “nós” em relação às tipificações sociais inscritas no extremo da desejabilidade esbarra nessa marca – o corpo – que lhe interdita tal processo de identificação; ao mesmo tempo, a cultura incita-o a aderir aos signos da desejabilidade, pela injunção, própria das estruturas da cultura, que resulta do fato de que os signos desse sistema são introjetados pelos indivíduos no processo de socialização, como diz Rodrigues.
Dessa forma, a cultura, que construiu a categoria “negro” enquanto um signo, produz, para o indivíduo negro, uma posição de ambivalência: oferece-lhe um paradigma – o da brancura – como lugar de identificação social; no entanto, por representar justamente o outro da brancura, tal identificação é, ipso facto, interditada, pois a distância entre os extremos na rede de tipificações, como se viu em Rodrigues, deve ser mantida.
Preso às malhas da cultura, o negro trava uma luta infinda na tentativa de se configurar como indivíduo no reconhecimento de um “nós”. Seu corpo negro, socialmente concebido como representando o que corresponde ao excesso, ao que é outro, ao que extravasa, significa, para o negro, a marca que, a priori, o exclui dos atributos morais e intelectuais associados ao outro do negro, ao branco: o negro vive cotidianamente a experiência de que sua aparência põe em risco sua imagem de integridade.
Se a cultura lhe atribuiu uma natureza que é da ordem do inaceitável, esses sentidos são introjetados pelo negro e vão, necessariamente, produzir configurações psíquicas particulares. Nesse processo em que a cultura o captura, o negro recusa sua própria imagem e permanece cativo do fantasma da inferioridade, de que seu corpo é, socialmente, a marca.”
Isildinha Baptista Nogueira, A cor do inconsciente: Significações do corpo negro